Comprou um apartamento em Areias de São João para arrendar no verão e é a casa de banho que está a travar tudo. Nas fotografias, aquele azulejo escuro engole a luz e faz o espaço parecer metade do que é. Já percebeu que, com paredes claras, uma aplicação de azulejos devidamente executada e um pavimento cerâmico bem instalado, a mesma divisão aparece limpa e ampla em qualquer imagem — e que isso se traduz em noites reservadas. O que o segura não é o orçamento. É não saber a quem entregar a chave em janeiro com a certeza de que em março está pronto.
Ou vive cá há anos e a cozinha é onde passa metade do dia. A bancada já está escolhida, o modelo do azulejo está guardado no telemóvel há meses, mas fica preso à imagem da casa virada do avesso e dos tachos em caixotes durante semanas. O que quer mesmo é ver aquele metro branco biselado atrás do fogão, com a luz da manhã a bater de lado. Para isso basta alguém que entre, faça, limpe e lhe devolva a cozinha em quatro dias.
Há também o caso urgente. A parede junto ao duche começou a largar peças e, quando alguém encostou a mão, saiu uma inteira. Por trás, o reboco estava escuro e húmido. Já entendeu que o assunto não é um azulejo, é a parede — e que voltar a colar aquela peça é comprar tempo. Aqui a ambição é mais discreta e mais funda: tomar banho sem pensar no assunto.
E há quem chegue a meio de uma história começada por outra pessoa. Acontece-nos com frequência no concelho, sobretudo com obras iniciadas em época alta por quem prometeu datas e desapareceu. A parede tem duas fiadas assentes, o material está encostado à parede da sala e a paciência esgotou-se em agosto.
Em qualquer destes cenários, o que falta entre o ponto onde está hoje e a casa que tem na cabeça é uma equipa que apareça na data combinada e trate a parede com a atenção que ela exige. Colocar azulejo na parede é o que fazemos todos os dias, e é a única coisa a que nos dedicamos.